Os Filhos de Quatro Patas existem?

Nunca fui uma criança chorosa. À medida que fui crescendo foi-se tornando mais fácil deixar-me em lágrimas. Envolvo-me no que me surge, principalmente se for bonito ou trágico. Com os sentidos apurados, bloqueio a razão e/ou deixo a imaginação divagar. O problema das construções mentais, das narrativas imaginárias, é a apropriação involuntária que faço do sofrimento alheio. Não suporto a solidão que existe no sofrimento (e que é sua condição). Beber da dor alheia é o meio que encontro para vingar a injustiça e sentir-me digna da minha espécie (não fosse o sofrimento traço humano). 

Por isso, apesar de nunca ter sido uma criança chorosa, desfazia-me em lágrimas quando, na praceta onde vivia, encontrava gatinhos abandonados. É uma empatia quase universal. Bebés e gatinhos conseguem aquecer quase todos os corações. A dor do abandono e do desamparo, conduzia a minha imaginação por cenários grotescos de passado e de futuro daqueles pobres seres.

Dava-lhes comida, às vezes às escondidas, contra as indicações da minha família. “Eles podem regressar”, diziam-me. Eu pensava “se eles não têm para onde ir, de onde vão regressar?”. Queria levá-los comigo para casa. A todos. Como não podia, sonhava com o dia em que tivesse muito dinheiro e pudesse construir um hotel para animais abandonados, com comida e amor infinitos.

Esse dia (ainda?) não chegou. O meu texto anterior fala de como crescemos e nos tornamos chatos, com a vida repleta de coisas, também elas chatas, que nos desviam do caminho para os nossos sonhos e, por vezes, também de nós próprios. Na fase em que começamos a ser muito críticos (porque ter opiniões sobre tudo é fixe!), revirava os olhos a afirmações do tipo “eu tenho um filho de quatro patas chamado Faísca”. Filho?! Conseguia ser arrogante ao ponto de referir o significado dessa palavra no dicionário e assim suportar a minha teoria em como um animal de estimação não é filho de humanos. 

Não aceitava e não compreendia, mesmo depois de ter deixado bocadinhos de mim em todos os animais que encontrei… Nós não compreendemos a dimensão do amor. A vida finda e o amor permanece. E enquanto a vida não finda, o amor vai existindo sobre diversas formas, tão infinitas quanto ele próprio. A verdade é que eu nunca tinha tido um animal de estimação, e desconhecia parte desse infinito.

Por querermos muito (que devia ser o principal motivo para as decisões que tomamos na nossa vida), decidimos adotar um gatinho. Ou melhor, dois gatinhos. Ou melhor, duas gatinhas. Sendo duas, teriam sempre a companhia uma da outra mesmo na nossa ausência. 

A gata de uma grande amiga minha ficou grávida ou muito gorda repentinamente. Apostámos na primeira opção e poucas semanas depois lá estava ela a entrar em trabalho de parto. Infelizmente, não foi uma hora pequenina nem feliz. Houve complicações, a mãe ficou bastante debilitada e incapaz de recuperar por causa da energia que as suas crias lhe consumiam. Tinham sobrevivido ao parto três meninas. Teríamos de ficar com as três, pois a probabilidade de sobreviverem separadas era mínima. 

E assim foi: aos quinze dias de vida as suas vidas estavam nas nossas mãos. Cabiam literalmente nas nossas mãos. Não viam, não ouviam. Procuravam o cheiro de uma mãe que não estava. De três em três horas, fosse dia ou noite, dávamos-lhes leite a biberão e ajudávamo-las a fazerem as suas necessidades. Um dia despertaram muito agitadas, com desarranjos intestinais. Começaram as viagens quase diárias para o veterinário. Da clínica mandaram-nos para o hospital. 

Uma das gatinhas, a que se mantinha mais afastada das outras, estava cansada de lutar pela sua vida. Nós não a conseguíamos ajudar. Os médicos também não. Foi e não voltou. Não o disseram, mas sei que a ajudaram a ir. Depois de tantas noites sem dormir, refeições esquecidas e emoções à flor da pele, chorei tanto, mas tanto, que cuspi o meu coração para arranjar espaço dentro de mim para os coraçõezinhos delas, onde estariam protegidos.

 As suas vidas valiam tanto ou mais do que a minha. 

A dor da perda e o inevitável sentimento de responsabilidade por aquela morte levaram-me a revisitar a minha infância e todos aqueles gatinhos abandonados que encontrava, e no igual destino que muitos deles provavelmente tinham tido, nos futuros perversos que imaginava e que, afinal, não eram assim tão irrealistas.

Ouvi a minha intuição materna, desperta desde o nascimento da minha filha, e tomei uma decisão que foi crucial para as vidas das duas gatinhas. Tinham quase dois meses quando deixaram de estar em risco de vida e eu pude colocar o meu coração novamente no meu peito. A importância das suas vidas juntou-se à daqueles que protejo e de quem cuido. Os nossos corações batem juntos e criam e alimentam este amor que nos une e move.

E isto acontece, porque ouvi o meu instinto e fiz os impossíveis. Isto acontece porque fui mãe.

A verdade é que eu nunca tinha tido um animal de estimação. Agora que tenho, compreendo melhor a dimensão do amor e conheço parte desse infinito. A descoberta deste amor foi uma provação: provou-me que os filhos de quatro patas existem.

Nádia Filipa Patrício
Nádia Filipa Patrício
Sou a Nádia. Sou filha há trinta anos, mãe há dez, companheira de vida há dois. Apaixonei-me pelo teatro ainda pequena. Pelo teatro, pela dança, pela música. Pela reflexão, pela construção e pela desconstrução. Gosto de revisitar memórias, percorrer sítios, encontrar conforto em pessoas e sons e cheiros. Também gosto de sair da zona de conforto, de desafiar. Gosto de situações mundanas que levam a conversas infindáveis. Gosto da Natureza e da leveza que traz ao dia a dia. E gosto de escrever sobre tudo isto.

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