Direitos da Mulher grávida

Direito das Mulheres… grávidas!

Artigo de opinião por: Carolina Coimbra

Fui desafiada há uns tempos para  escrever sobre direitos humanos, desejos para os humanos, como tinha sido mãe recentemente optei por  escolher os direitos da mulher na gravidez até ao momento do parto. Ou melhor, contra a violência obstétrica.

Comecemos pelo início: a mulher descobre que está grávida e começa a ser seguida pelo médico da especialidade obstetrícia ou pelo médico de família. Ao longo da gravidez para além do enxoval, vai preparando a chegada do bebé, informando-se sobre tudo, muitas inscrevem-se em grupos nas redes sociais para verem esclarecidas as suas questões desde as mais superficiais até às mais complexas. Outras vão à procura dessa informação em associações de apoio às mulheres grávidas ou em centros que fazem os cursos de preparação para a parentalidade ou ainda, procuram essa informação no seu grupo informal, grupo de amigos e amigas e junto da sua família. Têm cerca de 9 meses para essa caminhada, umas mais nervosas que outras, umas mais confiantes que outras.

    Devem estar curiosos para saber onde se encontra essa violência de que falei inicialmente. Essa violência pode ser muito subtil quando certos profissionais começam a tecer comentários sobre o seu peso, alguns até atrevem-se a fazer comparações com animais de grande porte.

À medida que a gravidez avança começa a ser mais visível a violência. Entramos nas últimas semanas de gestação, a partir da 37ª. Já ouviram falar no “toque”? O toque supostamente serve para ver como está a dilatação e a espessura do útero, no entanto, existem profissionais que fazem isso e ainda descolam as membranas que constituem o saco amniótico para que o processo do parto seja acelerado.

Como se faz o toque? É feito com a mulher deitada com as pernas afastadas e o médico introduz dois dedos, normalmente o indicador e o médio, com o intuito de tocar o fundo do colo do útero. Há mulheres que dizem que dói imenso, outras referem apenas algum desconforto. Qual o mal desse procedimento?

    Mal nenhum quando as mães estão informadas no que consiste esse procedimento e consentiram-no. Mas na verdade, a maior parte das mulheres que tiveram este procedimento não sabiam sequer o que ia acontecer, foram apanhadas desprevenidas. Foram à consulta para verem como estava o bebé e, quando estão a ser observadas, os médicos aproveitam e fazem logo sem dar explicações. Muitas, saem assustadas da consulta, porque pode levar a um pequeno sangramento.

Um procedimento como este passa a ser violência quando as mulheres não estão informadas sobre o procedimento. Muitas desconhecem sequer que podem dizer que não querem este tipo de procedimento, principalmente quando é feito antes da data prevista para o parto (DPP). 

 No meu caso, foi na consulta em que ainda estava com 39 semanas. A médica queria acelerar o meu parto, porque segundo ela o bebé já não estava a fazer nada no meu útero, mas eu recusei. Não tinha pressa em que ele saísse antes do tempo, decidi esperar pelo tempo dele. No entanto, há pessoas que não recusam porque não sabem que podem recusar. Não é um procedimento que coloque em causa a vida ou nascimento do bebé. É apenas um procedimento como outro qualquer, daqueles em que eles dizem: “Sempre se fez assim”.

    Finalmente o dia do parto, supostamente um dos dias mais felizes da nossa vida. Mas nesse dia podem sofrer violência obstétrica. Vamos dar um exemplo de um parto de alguém que conheço, aliás, de muitas mulheres que conheço. 

Começaram as contrações e a mãe grávida dirigiu-se às urgências, como ensinaram no curso de preparação para o parto e na visita ao hospital. Depois de observada o médico diz que não está com a dilatação completa, ainda tem dois dedos e só podem internar a partir dos três dedos. Passou-se uma hora e nada, mas a mãe está com algumas dores e não quer voltar para casa. Mandam ir andar e mesmo assim está parado o processo, ou parece estar. Decidem interná-la, ligam-na à máquina do CTG que não permite grandes movimentos (para seguirem os batimentos cardíacos do bebé e conseguem ver as contrações uterinas), tem de estar deitada e quieta, ligam-na ao soro e decidem induzir o parto. A indução implica a administração de ocitocina artificial.

A mãe começa com contrações mais dolorosas, começa a fazer algum efeito e dão-lhe epidural, as dores param. Mas o processo parou também, passaram-se 5 horas desde a administração da primeira epidural, o bebé entra em sofrimento, tiveram de ir de urgência para o bloco operatório, resultado: uma cesariana. 

Em nenhum destes momentos explicaram à mãe as alternativas que tinha e em que consistiam estes procedimentos, apenas informaram de que iam fazer esses procedimentos. As mães podem pedir outras alternativas à epidural, são eles:

  • um spray que ajuda a atenuar as dores no auge da contração,
  • as bolas de pilates,
  • existem as massagens,
  • existem os banhos no chuveiro ou imersão numa banheira

e existe ainda a combinação perfeita:

  • tudo o que foi referido em cima mais a doula.

No entanto, o que todos dizem à mãe é que o que importa é que ela e o bebé estão bem e, assim, esta mãe convenceu-se que não era capaz de dilatar, nem de aguentar dores muito fortes (ela nunca tolerou muito a dor).

Outro parto igual até à epidural, depois da epidural a dilatação está completa, antes do bebé nascer decidiram fazer uma episiotomia (corte no períneo), o bebé nasceu. Mas a mãe nem conseguiu pegar nele, levaram-no logo para limpar e fazer os testes e ser vacinado. Passou-se 1 hora e depois levaram-no para a mãe o ver finalmente, o bebé já vinha vestido com a sua primeira roupinha tão lindo e deram um pouco de leite artificial porque ele não se calava e estava cheio de fome. 

O que aconteceu aqui? 

– Os profissionais deveriam perguntar à mãe se queria que eles fizessem o corte no períneo, levou 10 pontos, quando podia ter levado menos ou nenhum, nem sempre o bebé rasga.

 – O bebé nasceu e a mãe não o viu durante a primeira hora de vida, não perguntaram se a mãe queria estar com ele na sua primeira hora de vida.

– Não perguntaram se a mãe queria amamentar ou se autorizava sequer que eles dessem leite artificial. 

 No entanto, o que todos disseram a esta mãe é que teve sorte, afinal estamos num país com taxas de mortalidade infantil e materna muito baixas, eles sabem o que fazem, temos dos melhores serviços em obstetrícia e assim esta mãe se convenceu que ela era culpada por ter tido o parto que teve. 

   Por fim, um terceiro parto. Neste a mulher grávida ouviu as histórias dos partos anteriores e recusou-se a viver o mesmo que as outras mulheres. Procurou informação baseada em evidências científicas e descobriu que existe um conjunto de procedimentos que não precisam ser feitos. Fez um plano de parto com tudo o que queria e o que não queria, estava ciente que nestas coisas tem de ser flexível. Mas o que ela escreveu de mais importante naquele plano é que queria ser consultada e que fosse informada quando alguma coisa não poderia ser como ela escreveu e, caso, ela mudasse de ideias em relação a alguma situação, que também eles fossem flexíveis. 

E o que aconteceu? 

Foi respeitada e não fizeram nada que ela não quisesse. Ela tem consciência que foi informada e assim pôde escolher o que queria para ela. No final, passou a ser mais confiante e descobriu que tinha um poder enorme dentro dela, mas querem tirá-lo às mulheres: a capacidade de parir os seus bebés sem intervenção médica, sozinha, só ela e o bebé. Esta mulher, sou eu.

   E esse é o meu desejo para todas as mulheres : que possam escolher o caminho a seguir para trazerem os seus bebés ao mundo, sem intervenção de ninguém e rodeadas de todo o apoio e respeito que merecem nesse grande momento das suas vidas. E, se tiverem que ter alguma intervenção ou todas, que sejam sempre informadas e consentidas. Utilizem sempre o “BRAIN”, ver quais os Benefícios, os Riscos e as Alternativas, e usarem sempre a vossa Intuição e pensarem em último caso, se não fizerem Nada o que acontece? 

Se utilizarem este método como questões aos profissionais por quem são acompanhados já ajuda bastante.

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