A vida por um fio - prematuridade

A vida por um fio

Por Natacha Ribeiro

A” vida por um fio” ou “estar por um fio”, são expressões com uma grande carga negativa, que associamos ao facto de se estar no limite da vida, no limite de alguma coisa.

Mas a vida ensinou-me que não. Faz hoje precisamente 4 anos que nasceu o meu guerreiro, da força imensa dos seus pouco mais que 1.300kg. O fio que nos ligava, que alimentava (mas pouco) a sua vida, deu lugar a outros incontáveis fios que não me deixaram ver o seu rosto, perceber as suas expressões de tanto espaço que tapavam dos seus já contidos 37cm.

Para quem passa pela experiência inarrável de ter bebés prematuros, especialmente quando se trata do primeiro filho, aprende cedo a arte de desentrelaçar com extrema minúcia os fios que os embrulham. Passa-se a lidar com isso com naturalidade, mas com a ansiedade imensa que estes sejam menos a cada dia que passa e, de preferência que desapareçam.

Enquanto pais de prematuros, não pensamos em comprar bodies com golinhas, mas antes aqueles que sejam mais práticos para passar os tais fios e que, ainda assim, não fiquem lhes fiquem a “boiar”. Não que precisem de os ter vestidos nas incubadoras, mas porque ter a oportunidade de vestir nem que seja uma das peças que, noutras circunstâncias estariam impecavelmente preparadas no saco da “primeira roupinha” é, em si, uma vitória.

E são estas pequenas vitórias que conferem outro sentido à vida. Conseguir comer ou respirar sozinho, sair da incubadora ou tomar banho, são vitórias gigantes. A experiência é avassaladora, mas torna-nos mais atentos, mais ligados ao sentido da vida e ao que realmente importa, para nós e para eles.

Agora, 4 anos depois, o que gostava verdadeiramente de ter tido naquela altura era a perceção de que foram aqueles fios que o mantiveram vivo com tudo aquilo que a natureza não foi capaz de lhe dar. Corta-se o fio principal, o cordão umbilical e os fios passam a ser outros.

Felizmente hoje são as cordas que servem para fazer “algemas a fingir”, são a dos embrulhos e as que servem para segurar balões, são os fios de cabelo arrancados cada vez que faz de cavalinho nas minhas costas e também já são os fios dos carregadores que dão energia para não “morrermos de bateria” no tablete (como ele diz).

Na verdade, estar por um fio pode ser a forma mais vigorosa de estarmos ligados à vida. E quando cortarmos esse fio, que tenhamos aproveitado tudo o que ele nos deu. Que tenhamos absorvido toda a energia, todos os nutrientes, todas as coisas boas que nos tornam mais hoje mais fortes.